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NUNCA FUI PRIMEIRA-DAMA

No livro “Nunca Fui Primeira-Dama”, a escritora cubana Wendy Guerra solta um grito desesperado de quem não suporta mais viver numa falsa identidade, num exílio interno, contra a sua própria individualidade; ferida na sua mais íntima subjetividade. Rompe radicalmente com a educação ideológica e política a que foi submetida em Cuba.Expressa o sentimento de toda uma nova geração de artistas e intelectuais cubanos, cerceados em sua vocação criadora e em sua liberdade de expressão. É o grito de uma geração que se nega a ter que renunciar aos seus projetos pessoais em favor de um projeto coletivo: a revolução.

Essa geração Y , doutrinada para ser igual ao Che, rejeita um destino único e coletivo, onde todos devem ser heróis e estar engajados acriticamente no determinismo escatológico da Revolução. Esta também é a geração de Yoani Sánches, Ena Lucía e de outros tantos artistas plásticos, atores, músicos, de toda uma nova juventude rebelde da ilha, que não se sente mais comprometida com o dever de ser revolucionária. Uma geração que se nega a renunciar à própria individualidade em prol dos ideais e dos feitos políticos dos ícones do passado. Cansada de esperar pelas promessas não cumpridas, já vislumbra outras possibilidades de vida na pluralidade do mundo contemporâneo.

Em todas as sociedades, os intelectuais e artistas costumam ser aqueles que captam e interpretam os sinais de desconforto, inquietude e insatisfação que se manifestam indistintamente na vida cotidiana e coletiva. Num primeiro momento, passam a lutar num espaço mais existencial do que político, expressando os sentimentos que estão latentes nas relações sociais. Por isso, a arte e os artistas, em qualquer época, foram e ainda são censurados em todos os regimes políticos totalitários.

As obras de alguns escritores cubanos contemporâneos, como o romance de Wendy Guerra, tentam fazer essa virada de página na história do seu país. Uma mudança difícil, sofrida, gigantesca, porque precisa ser realizada no seio de um regime político para o qual a história já chegou ao seu destino final, glorioso, sacralizado, mitificado, e, portanto, imutável, incontestável. A “revolução”, que reivindica para si já ter promovido a libertação final da humanidade e a realização plena da igualdade, não admite outra atitude, somente o seu culto diário, na vida e nas artes, através da imitação dos seus ícones sagrados, dos seus “santos” políticos, dos seus eternos heróis.

Na primeira página de seu romance, a personagem Nádia Guerra, num programa de rádio noturno, ao vivo, “transmitido do país de ninguém”, anuncia aos ouvintes que nessa noite vai lhes dizer tudo o que pensa, tudo o que sentiu e nunca teve coragem de dizer “até esse minuto”. Então ela fala: “Sou uma artista, não uma heroína contemporânea, odeio essa desproporção, não quero que esperem que eu seja o que não sou. Não devo mais aos mártires que aos meus pais, à minha resistência, à minha própria história pessoal ancorada aqui em minha simples vida cubana”. Depois dessa declaração insensata, é afastada da rádio.

Nádia recebeu esse nome em homenagem à mulher do líder da Revolução Soviética Lênin, e que, ironicamente, quer dizer “esperança”. Ela é filha de um casal de artistas e intelectuais cubanos que viveram na década revolucionária dos anos sessenta. A mãe de Nádia, uma poeta, jornalista, ativista cultural; o pai, um cineasta. Embora não tenham feito a revolução, a ela aderiram acreditando em seus ideais. No seu desabafo radiofônico, entretanto, Nádia revela como estes, após constatarem que as promessas da utopia socialista não seriam cumpridas, desiludiram-se com o regime e foram levados à loucura. “Meus verdadeiros heróis são meus pais, vítimas de uma sobrevivência doméstica, calada, dilatada, dolorosa. Desintegrados numa seita de adorações e desencantos, eles perderam a razão.”

A trajetória da personagem, ao longo do romance, que mistura fatos reais e ficção, será, então, a desesperada tentativa de resgatar, dos escombros do passado, os fragmentos, os vestígios da vida perdida dos seus pais - principalmente de sua mãe - desintegrados, diluídos na máquina poderosa da ideologia coletiva. Uma tentativa de restabelecer a dignidade dessas pequenas vidas num contexto histórico de uma existência social e política asfixiante e de negação do indivíduo. É também a busca de reconciliação com a própria mãe, de entender por que foi abandonada por ela aos seus dez anos de idade, quando esta saiu de Cuba. Mãe que, enfim, vai reencontrar, mas já desmemoriada e enferma, uma “morta-viva”, incapaz de reconhecer a própria filha. Talvez uma metáfora da ilha em relação aos seus jovens filhos.

Ao resgatá-la em Moscou, descobre entre os seus pouquíssimos pertences, uma caixa onde ela guardava algumas páginas de um romance sobre a vida de Célia Sanches, uma enigmática guerrilheira que não deixou rastros de sua história. Célia Sanches é uma personagem real da Revolução Cubana, tendo lutado junto com Fidel em Sierra Maestra. Depois, no poder, foi a sua inseparável secretária particular. Há quase uma lenda em torno dela, de que teria se casado secretamente com Fidel, e que seria, assim, uma espécie de Primeira-Dama de Cuba. Daí o título do romance.

O romance acaba por desvendar o fracasso, tanto da mãe, ao não ter concluído a biografia da heroína da revolução Célia Sanches, quanto o da filha Nádia, que consegue apenas recolher fragmentos da história da sua própria mãe junto a ex-amantes e amigos. Talvez resida aí a complexa natureza da literatura e de suas impossibilidades, ao pretender reconstruir vidas através de uma narrativa. Em se tratando de biografias, o desafio da impossibilidade parece ser ainda maior e instransponível. Mozahir Salomão Bruck, no seu ensaio “A construção biográfica: a ilusão da reposição de vidas pela narrativa” ( Em Cronópios, 30/07/10 ) utiliza-se do conceito de ilusão biográfica de Pierre Bourdieu . Esta ilusão se basearia na crença de que é possível uma reposição do real através de uma biografia. Para o autor, esta se constitui numa falsa crença, já que a vida de uma pessoa não é um todo unitário, linear, não é “um conjunto coerente e orientado que pode e deve ser apreendido como uma expressão unitária de uma intenção subjetiva e objetiva, de um projeto”.

O romance de Wendy Garcia “Nunca fui Primeira-Dama”, ao enfrentar essa ilusão, essa impossibilidade, ao nível de uma vida individual, acaba por demonstrar, dolorosamente, o quanto também é impossível fazer uma nação inteira viver, para sempre, na ilusão histórica de uma utopia revolucionária, imposta a todos, em nome de um projeto único de vida objetiva e subjetiva.

A condição de ilhéus dos cubanos, que se reflete com maior intensidade em seus artistas e intelectuais, agrava e dramatiza ao extremo a insuportável sensação de um aprisionamento. A eles, somente restaria, conforme a sua própria ironia, uma das alternativas dos três erres: rir, rezar, ou então, remar.


28/10/2010

 

 

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