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DISCURSO DO PATRONO - 61ª Feira do Livro de Porto Alegre
03/11/2015 / Dilan Camargo

DISCURSO DO PATRONO – 61ª Feira do Livro de Porto Alegre.

 

Eu canto porque o instante existe / e a minha vida está completa./

Não sou alegre, nem sou triste /: sou poeta./  Cecília Meireles.

 

Ser escolhido Patrono desta 61ª Feira do Livro de Porto Alegre entre expressivos nomes de escritoras como Cintia Moscovich, Valesca de Assis, uma senhora poeta, como Maria Carpi, e um genial cartunista e artista gráfico como Santiago, equivale a um prêmio que se recebe uma só vez, mas que vale por uma vida inteira. Fui surpreendido por essa graça da vida, que não se pede, não se exige, mas se agradece. Agradeço à CRL e aos seus associados, e aos demais eleitores e entidades que votaram na escolha final.

 

Agradeço as manifestações de alegria que continuo recebendo de amigos, de colegas, de leitores e de professoras em todas as escolas e feiras aonde chego. Agradeço a quem sempre acreditou na minha escolha, seguindo a sua admirável intuição, a minha esposa Magda. Devo a ela também parte desta caminhada que me trouxe até aqui. Ela vibrou com a sua alegria de todos os dias e ganhei dela um beijo inesquecível.

 

Agradeço às minhas filhas, Graziela, Letícia e Tamara, e agora, à minha netinha Anabel, o afeto e a inspiração das suas vidas, das suas infâncias, que reforçaram ainda mais em mim o amor pela poesia da própria vida. Ao meu enteado Eduardo, um abraço afetuoso, dos tantos que já trocamos, pelas convivências  enriquecedoras. Agradeço à minha família de tios e tias, primas e primas, pela solidariedade e acolhimento de anos e anos.

Da minha mãe guardo a lembrança da sua voz me contando histórias de Pedro Malasartes, recitando quadrinhas e poesias de Casemiro de Abreu.

Tenho também uma imensa dívida de gratidão com a Congregação dos Irmãos Maristas pela educação que me proporcionaram através de uma bolsa de estudos no Colégio Sant’Anna, em Uruguaiana. Tenho procurado retribuir para a sociedade através dos meus engajamentos sociais e culturais.

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Devo à vida muito mais do que sou capaz de dar a ela. Mesmo quando ela me derrubou com perdas e me afligiu com a dor, não a reneguei, mas procurei aprender com os seus desígnios. Fiz da aceitação, do amor fati, uma porta para novas vidas.

Aprendi com o poeta Kaváfis que nada posso cobrar da vida porque a vida nada me prometeu. Eu que aproveitasse a viagem de volta à Ítaca, vivesse cada dia, visitasse os portos, provasse iguarias. Que aprendesse a recolher sorrisos, a inspirar crianças, jovens, e a consolar e alegrar irmãos. E quando enfim chegasse de volta à Itaca, e se a achasse pobre, que nada reclamasse, porque ela não me iludiu. Tornei-me sábio, um homem de experiência, e mais do que isso não cumpria a ela me dar. Quero somente poder dizer como Neruda: confesso que vivi.

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Nasci em Itaqui, que significa “pedra boa de afiar”, pedra d’água, pedra rolada, moldada no rumo das correntezas, das águas que nunca param. Nasci num lugar que me ensinou a estar sempre afiado diante do destino, e que deu ao Rio Grande e ao Brasil a figura ímpar de Manoelito de Ornellas, primo de minha mãe. Cresci em Uruguaiana, cidade que soube juntar o rio Uruguai à devoção pela Senhora Sant’Anna. Aprendi a nadar nas suas águas. Elas me ensinaram a seguir o curso da vida, a não me contentar com as superfícies, mas a mergulhar nas profundezas, lá onde a vida é arisca e primitiva. Da Senhora Sant’Anna  aprendi as difíceis artes da aceitação, da bondade e do perdão do mundo.

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Esta 61ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre tem como idéia inspiradora o tema “Livros ajudam a pensar”. Diante da crise da nação brasileira, econômica, social, política, moral, este é um tema oportuno e necessário. Precisamos recolocar o nosso país no contexto de uma civilização das idéias e da imaginação. Nunca, como agora, na história do nosso país, precisamos tanto da lucidez e da ética do pensamento. A capacidade de pensar e de imaginar, esta maravilhosa e, às vezes, assustadora faculdade humana,  deve ser o caminho para reconstruirmos uma identidade nacional nos marcos da civilização, contra a barbárie da violência e da corrupção. Precisamos combater, em todas as manifestações da vida nacional, a nefasta cultura da “razão cínica”, como a definiu Jurandir Freire Costa, marcada pelo cinismo, a delinqüência, a violência e o narcisismo, e que nos tem feito regredir, enquanto sociedade, a um perigoso estado de natureza.

Precisamos recuperar, estimular, e eleger o pensamento, livre dos dogmatismos ideológicos e dos maniqueísmos políticos.

Embora essa triste realidade, mantenho a esperança e repito a frase iluminada de Nélida Piñon: “Se Machado de Assis existiu, o Brasil é possível”.

 

Livros ajudam a pensar. Mas, quando a razão bate nos seus limites, ela necessita estar acompanhada da imaginação estética, da arte de conceber e de criar. É nesse diálogo inteligente e sensível que o ser humano encontra o equilíbrio dialético entre as suas necessidades e as suas liberdades. E o livro é o ponto de referência e de apoio nesse processo de humanização.

Na minha vida, posso afirmar que cada livro foi esse ponto de apoio e de equilíbrio, indicado por Arquimedes, através do qual ergui o meu próprio mundo.Livro a livro construí a minha fortaleza de papel.

 

A contribuição da literatura para as pessoas e para a cultura humana está no encantamento de podermos exercer e fruir da arte da palavra, da arte da palavra poética, que transcende os seus significados instrumentais e cotidianos. Só ela nos coloca em contato com a nossa profunda subjetividade, da qual ninguém pode fugir. Só ela pode ser a encantadora e a ordenadora do nosso mundo interior, que é tão infinito quanto o mundo exterior. Só ela é formadora e transformadora de consciências e de sentimentos. A palavra é a mais perfeita e sensível expressão da razão e do amor humanos. Todo ser amado, para crer no amor, quer ouvir: eu te amo! Duvido que alguma imagem seja capaz de falar mais do que estas três palavras!

 

Drummond nos pergunta:

 

“Que pode uma criatura senão, /entre criaturas, amar?

amar e esquecer, amar e malamar, / amar, desamar, amar?

sempre, e até de olhos vidrados, amar?”

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Sou um pequeno escritor de pequenos leitores, sejam crianças ou adultos. Sou um escritor numa pátria em que isso significa ser um ilustre desconhecido, e em que a leitura é uma prática minoritária, enquanto a tagarelice sobre a importância da educação e da leitura soa como uma retórica abusiva e cínica.

 

Nestes anos, tenho feito uma campanha que vai além da política. Uma campanha pela formação de LEITORES. Precisamos organizar amplas BASES LEITORAIS para formar um amplo e crítico LEITORADO.

 

Sabemos que um dos problemas básicos do nosso país é a baixa escolaridade da nossa população. Além de baixa ela ainda não é qualificada. Eu não compreendo, e se reflito melhor, não aceito que uma criança brasileira não seja capaz de ser alfabetizada aos sete anos de idade na primeira série do ensino fundamental. Esta é uma omissão e uma acomodação inaceitável do nosso sistema de ensino. As estatísticas sobre a capacidade de leitura e de cálculos das nossas crianças são vergonhosas.  Como podemos ter um povo que não lê, não se informa, não se forma, e, portanto, não pensa por si mesmo? É muito triste ver como parte das nossas crianças e jovens, salvo exceções, estão vivendo e estudando numa espécie de gangorra pedagógica. A prioridade da educação e da leitura precisa ser a rubrica mais dotada dos orçamentos públicos e dos gastos das famílias. A educação brasileira deve superar as ruínas e o fracasso do populismo pedagógico. E os escritores são parte nessa nova arte de fazer nossa sociedade avançar e consolidar uma verdadeira república democrática.

 

Precisamos aplicar práticas de leituras diárias nas escolas e nas famílias. Não há outro caminho. A leitura, e principalmente, a leitura literária, e em voz alta, pelas crianças e jovens, tem que ser uma prática diária na escola e na família, do contrário não adiantarão tecnologias, métodos, inovações. Saúdo com esperança a iniciativa da Sociedade Brasileira de Pediatria que está orientando os pediatras a receitarem livros para os seus pacientes de zero a seis anos , por acreditar que a leitura para as crianças é fundamental ao seu desenvolvimento cognitivo, além de fortalecer laços afetivos.

 

Neste ano estive em Paraty, na Flipinha, e encontrei-me com crianças da escola pública Parque da Mangueira. Na tenda da praça fui abordado por uma professora que me confessou ter viajado 1.300Km em busca de algo novo para levar às suas crianças. Deu-me a alegria de levar meus livros autografados. No encerramento, falei, em alto e bom som: aqui descobri que as crianças são as mesmas em todo Brasil, e que também as professoras são as mesmas em todo o Brasil. Numa escola, uma só professora que acredita no poder libertador da leitura revoluciona o ambiente e a comunidade escolar.

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Uma pergunta  tem pairado sobre o futuro do livro diante das novas tecnologias da escrita e da leitura. O livro impresso vai desaparecer?  Respondo sempre que a superfície sobre a qual se escreve e se lê é o que menos importa. O que importa é que sejam escritos e sejam lidos conteúdos relevantes para o ser humano, sejam textos literários ou outros. A humanidade já escreveu e leu em peças de argila, em peles de animais, em papiros, em papel, e agora, descobriu uma tela de cristal líquido. Estamos mergulhados e quase nos afogando nessas novas águas, nos aprisionando nas redes, e consumindo informações às vezes desnecessárias e irrelevantes. Esse tipo de leitura, como a vida de celebridades, somente banaliza o nosso cotidiano, nada contextualiza, e não se constitui em fonte de inspiração para o aperfeiçoamento e o equilíbrio da nossa personalidade. Não nos informa e nem nos forma como pessoas dotadas de um cérebro que é feito para evoluir e não para estagnar. A leitura literária preenche a profunda necessidade humana de ideais, de valores éticos, que possam dar sentido à vida e pela qual ela valha ser vivida.

 

A Feira do Livro sempre foi um dos momentos mais importantes da veiculação e comercialização do livro. Ela cumpre o mesmo papel que cumprem no mercado as demais feiras que comercializam outros produtos, bens e serviços. O livro, entretanto, tem outra natureza. O seu conteúdo intelectual, informativo ou literário, jamais poderá ser mensurado. Ele transcende qualquer escala econômica ou financeira porque, antes de tudo, é um patrimônio cultural. No entanto, o livro também é uma mercadoria industrializada.  Os que o comercializam jamais acumulam riquezas em papel-moeda, pelo contrário, transmitem riquezas artísticas, culturais e científicas aos leitores. A classe média precisa considerar que o gasto de uma família num rodízio de churrascaria daria para comprar vários livros. Faço votos de bons lançamentos e de boas vendas nesta 61ª Feira do Livro de Porto Alegre.


Até agora, o livro impresso tem sido o principal bem cultural e civilizatório do chamado mundo ocidental. Mas não podemos nos aprisionar numa visão mistificadora e sacralizada do livro. Ouvi de Saramago a advertência de que foi em nome de dois livros sagrados que a humanidade mais matou e continua a matar.

 

O livro vai permanecer e conviver com toda e qualquer nova tecnologia de escrita e leitura, pelo tempo de muitas e muitas gerações. Quem sabe, até enquanto existir um ser humano. Por isso, saudemos esta feira, local de encontro consigo mesmo, com os outros, e com toda a humanidade, contida nas milhões de páginas escritas que serão abertas nesta praça.

 O livro nunca perderá a sua identidade cultural e civilizatória consolidada em gloriosos 560 anos de existência, desde a impressão da primeira bíblia de Gutenberg. Todos ao livro!

 

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